23 Novembro 2015

Por: São Carlos Cidade das Águas

nov 24 2015

Tags:

Categoria: Artigo, Depoimento, Uncategorized

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Autora: Alessandra Pavesi

 

“Moro numa altura a apenas dois quarteirões do centro, distância suficiente para a minha casa se manter a salvo das enchentes que desde sempre castigam os vales densamente urbanizados da cidade. Da janela que dá para o jardim, pela qual assisto à cortina de chuva se abater sobre os telhados vizinhos e as copas das árvores, não dá para imaginar que lá fora tenha provocado a devastação que foi tempestiva e amplamente divulgada pelas redes sociais. De fato, logo que a intensidade diminui, as poças de água na grama são prontamente reabsorvidas e penso: o pior passou.

Mas o pior ainda está para acontecer em outros lugares da cidade bem próximos daqui, anunciado por sirenes, buzinas e alarmes enlouquecidos. Conhecidos divulgam as primeiras imagens da enchente: ruas do centro transformadas em corredeiras, que arrastam e amontoam os carros em arranjos improváveis, lojas desertadas e submersas pela água barrenta, inteiras regiões alagadas e irreconhecíveis. Mais tarde, eu mesma saio para um passeio de reconhecimento da zona mais atingida, aquela do Mercado Municipal. A chuva cessou completamente e os córregos já se retiraram para seus leitos subterrâneos. As pessoas, sobretudo lojistas, armadas de rodos, procuram expulsar os detritos e restabelecer a ordem. Das calçadas esburacadas, curiosos assistem às manobras dos tratores que tratam de desobstruir as vias e as bocas de lobo, entupidas por lixo e entulho.

O lixo está em todo lugar, e não consiste somente em embalagens encharcadas varrida das lojas. Já no caminho de volta para casa, tenho de esquivar sacos cheios de lixo, outros se encontram esparramados no asfalto. Dou-me conta de que as pessoas, apesar da ameaça incumbente de um temporal, não puderam resistir ao hábito de lançar o lixo doméstico às calçadas. Justamente por causa do temporal, os lixeiros se atrasaram, mas a enxurrada se encarregou do serviço de “limpeza”: os sacos plásticos foram levados para longe. Problema resolvido.

O nosso lixo de todo dia pode não ser a causa mais profunda das enchentes nas cidades (mesmo quando, efetivamente, entope as bocas de lobo, impedindo o escoamento da água da chuva), mas o que mais deveria nos preocupar é o gesto descuidado e descomprometido com o qual o enxotamos (ou acreditamos enxotá-lo) das nossas vidas. Esse gesto, somado a muitos outros que organizam a nossa rotina, sinaliza uma alienação paulatina não apenas da natureza, da cidade, da comunidade, mas do próprio bom senso. Por isto, em ocasiões como esta, já não basta apelar para justificativas e soluções técnicas paliativas. Cabe, antes, refletir sobre os valores que movem as nossas atitudes e gestos cotidianos, e que decidem, para o bem ou para o mal, o futuro das nossas cidades e comunidades.”

 

Autoria da fotodesconhecida.

 

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