O projeto

Não seria exagero apelidar São Carlos de cidade das águas, já que seu território é virtualmente atravessado por dezenas de cursos de água, entre rios, ribeirões e córregos. Contudo, a paisagem que se apresenta ao habitante ou visitante mais atento nada transmite do frescor que sua condição hidrográfica privilegiada evoca. Ao contrário, as águas de São Carlos, que outrora brotavam generosamente de fontes, bicas e chafarizes e corriam morro abaixo para os fundos dos vales, sumiram de vista e, junto com elas, secaram a paisagem e o tempo. Forçadas a percursos subterrâneos, das ¨malditas¨ lembramos apenas nas enchentes seguidas aos temporais que se abatem sobre a cidade, quando engrossadas pelas chuvas e pelo lixo que recolhem em sua corrida furiosa, arrebentam dos bueiros e dos leitos cimentados.

Tampar as nascentes, canalizar as águas, aterrar, asfaltar, cimentar e cercar representam apenas uma forma de obliteração e violência. Outra maneira, mais subtil, mas não menos eficaz, é privar os lugares de uma identidade que os associava a suas feições naturais, renomeando-os com topónimos não raro de origem estrangeira e pronunciação insondável. Assim, tudo o que resta de um dos mais populares córregos da cidade é o nome de um posto de gasolina que funciona nas proximidades de sua nascente. O símbolo, um garotinho que urina no rio, diz tudo da consideração destinada a uma fonte que já foi preciosa para São Carlos, cuja água escorre hoje por baixo do asfalto, desaguando desapercebida no Gregório.

Criamos o blog águas da memória principalmente com o desejo de prestar tributo e devolver dignidade à paisagem original da cidade e, principalmente a suas águas que fluem, sem vida nem propósito, se não aquele de carregar os nossos dejetos, debaixo de nossas ruas e habitações.

Ao mesmo tempo, pensamos em construir uma ferramenta interativa para, junto com os usuários do blog, investigar, reavivar e celebrar as águas que, canceladas da paisagem visível, cavaram um leito em registros históricos: na iconografia, literatura, em matérias de jornais e, sobretudo, na memória e no imaginário dos moradores mais idosos.

O poeta Joel Barlow sabia que ver um rio era ser arrastado em uma grande corrente de mitos e memórias fortes o suficiente para nos trazer de volta ao primeiro elemento aquoso de nossa existência no ventre materno. Já para os Gregos, o rio Lete era símbolo do fluxo do esquecimento. Suas águas tinham o poder de despir aqueles que o atravessavam das lembranças que os amarravam à vida. O fluxo transporta as memórias lavadas dos mortos a uma fonte que os transforma em meras sombras. Esta fonte da lembrança foi chamada Mnemosine. Em suas águas claras, os resíduos das vidas vividas afloravam como grãos de areia no fundo de uma nascente borbulhante. Assim, um mortal abençoado pelos deuses pode aproximar-se à fonte e ouvir as Musas cantar o que é, o que foi e o que será.

Por tratar-se de um elemento tão indissoluvelmente ligado à memória, nos pareceu natural reconstruir a história das águas da cidade a partir das lembranças de seus moradores, poetas e cronistas. Afinal – escrevia Bobbio, em O Tempo da Memória – somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos, mas somos também aquilo que lembramos. As nossas riquezas são também as lembranças que conservamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião.

Por sua vez, os lugares da memória condensam, como diz João Carlos Tedesco, a imagem de um passado; são pontos de visibilidade evocativos, senso de pertencimento de indivíduos a um determinado grupo; construção de memória coletiva.

Nossa intenção, longe de querer congelá-la, é buscar um futuro para essa memória coletiva. De fato, apesar do conteúdo do nosso blog denunciar o esquecimento de lugares que já foram referência, elementos importantes no cotidiano mais antigo da nossa cidade, por outro lado busca devolvê-los ao presente através dos depoimentos, crônicas, poemas e imagens dispersas, pacientemente garimpadas por nosso grupo – ao qual esperamos que se agreguem outros colaboradores. Trata-se de fragmentos que confiamos refresquem a lembrança e fortaleçam a identidade da população que se dispuser a rememorar sua relação viva com os mananciais de São Carlos, possibilitando reconstruir no imaginário aquilo que não existe mais no plano concreto.

Ao cabo da deriva hipertextual para a qual convidamos os navegantes, talvez consigamos construir, juntos, uma imagem da cidade e de suas água organizadora de fatos e possibilidades, um quadro geral de referência, como acreditava ser Kevin Lynch, no qual poderemos situar os nossos conhecimentos e ações. Na página como navegar, os viajantes poderão encontrar dicas úteis para percorrer o blog e participar da construção dessa imagem. Não nos resta que lhes desejar boa viagem nas águas da memória de São Carlos.

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14 comentários em “O projeto”

  1. Recomendo o documentário “Entre Rios” que conta um pouco da história dos rios e córregos de São Paulo, que em nome do progresso foram canalizados e enterrados… Uma história que se repete em muitas cidades paulistas! :-S

  2. Pessoal,

    adorei o blog…. mesmo!
    criativo, bonito, um charme…
    quem dera recife tivesse um blog assim!
    estou incluindo ele nas indicações do próximo semestre, em que trabalharemos o tema das águas do recife.
    ficarei de olho nas atualizações!
    beijos!

  3. Conhece o projeto Manuelzão? http://www.manuelzao.ufmg.br. Adoro o projeto e acho que ele serve de exemplo para todos que desejam iniciar uma mobilização da sociedade. Podemos pensar em um projeto em comum, como você colocou lá no blog ( http://guiaecologico.wordpress.com). Devemos então começar a pensar em algo, planejar e mãos a obra! Grande abraço!

  4. Obrigado a todos pela contribuição. Interessantíssimos o vídeo e o projeto Manuelzão…vamos nos falando!

  5. parabéns aos blogueiros. bela foto essa do grafite! abraço forte, gabriel

  6. Olá, boa tarde.
    Sou produtora de reportagem da EPTV.
    Vcs podem mandar os contatos.
    Estou interessada em fazer uma reportagem.

  7. Gostei muito da reportagem e para constar o corrego biquinga passa dentro do terreno da creche anita costa e do bombeiro e esta bem cuidado com agua limpida

  8. Parabéns pela iniciativa do blog e principalmnete pelo conteúdo e abordagem poética e sensível sobre a Água! Adorei!

  9. esse texto é mt boom mais é mt comprido para crianças de nossa idade te preguiça de ler ou seja esse texto é chatoooooooo

    • Ehehehe, ok! Crianças (e adultos) ficaram mal acostumados com as redes sociais! Ler textos mais longos é bom para a concentração! Mas muito muito obrigado pelos comentários e critica construtiva, vamos lembrar disso nos próximos textos!


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